Percepções do Festia

Tempos de Sobriedade
Julio Larroyd

Performance, teatro de rua, teatro na rua? Difícil delimitar margens para Tempos de Cléo, solo da maringaense Márcia Costa que ocupou o calçadão do centro de Canoas durante o 6º Festia – Festival Internacional de Teatro de Canoas. Inspirado em uma errante que frequenta a Universidade Estadual de Maringá, a montagem foi contemplada pelo Prêmio Miriam Muniz 2014 e tem direção de Gabi Fregoneis.

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Foto por Suyá Monteiro

O que marca o início da ação é uma mulher caminhando de costas entre os transeuntes. Há muito o que fazer, o tempo é curto, e poucos estranham a presença da atriz vestida com roupas cotidianas. Não leva nada nas mãos, apenas olha em volta e balbucia algumas palavras. Diante de uma trouxa de roupas que está no chão, em cena, ocorre a transformação. Criado a partir da costura de diversos retalhos de calças jeans, o figurino remete a vidas fragmentadas unidas por uma sutura, o que autoriza à Cléo ser única, audaciosa e reunir em si essas diversas vidas.

Em um primeiro momento, é apenas mais uma voz ecoando no centro da uma cidade, mas, à medida que a trouxa de pano que ela carrega se mostra um figurino, surge vagarosamente Cléo, e os espectadores se aglomeram em seu entorno.  O caráter de espetáculo se revela totalmente na instalação de um amplificador de voz. Em Canoas, o equipamento não funcionou, o que acrescentou muito ao espetáculo, afinal Márcia é dona de uma projeção de voz que dispensa o uso do equipamento.

Enquanto distribui café aos espectadores, como quem recebe visitas em sua sala de estar, Cléo sente-se à vontade na rua. Entre um causo e um relato, verdades vão sendo ditas alternando momentos dramáticos e cômicos ao som de uma trilha sonora que traz sucessos de Rita Cadillac. A dramaturgia assinada por Carolina Santana é composta de fragmentos de diálogos coletados nas praças e ruas de Maringá, em uma costura de sanidade e de loucura questiona os valores morais e éticos de uma sociedade que ignora uma parcela da população, tornada invisível. Quantas Cléos existem em Canoas, Porto Alegre, Maringá? Incontáveis. Mas elas são menos que indivíduos – são paisagem.

Cléo na prática

Durante a oficina “Tempos de Cléo, compartilhando processos”, realizado no Centro Cultural Villa Mimosa, a atriz Márcia Costa e a produtora Rachel Coelho conversaram com os presentes sobre os processos desenvolvidos durante a criação de “Tempos de Cléo”. Depois de um bate-papo, Márcia e Rachel propuseram a prática de vagar pelo espaço interno e externo da Villa Mimosa durante 10 minutos. Esse foi um dos dispositivos empregados na criação do espetáculo. Durante a caminhada, cada um deveria falar em terceira pessoa sem parar, gravando no aparelho de celular o fluxo de consciência.

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Foto por Suyá Monteiro

A atividade mudou a anatomia da casa Villa Mimosa, que foi invadida por vozes e movimentos estilhaçando o silêncio característico do espaço. Essa era a primeira parte da atividade: a segunda consistiu em os presentes trocarem entre si os aparelhos e executarem as ações do áudio. Mais do que vozes, agora eram corpos subindo e descendo as escadas, ocupando os espaços mais improváveis, com ações das mais simples às mais absurdas.

Sair do convencional, questionar-se, descobrir-se, transcender. Este é o principal fruto da maturação desse tempo absurdamente diferente do cotidiano, no qual o momento presente é o que importa, no qual as trocas são mais importantes que os ganhos. São Tempos de Cléo.

Vida de oficinando
Julio Larroyd

As ações formativas são fundamentais dentro de um festival de teatro e nós, os oficinandos, o povo teatreiro, aguardamos as programações e suas oficinas e com o FESTIA não é diferente. Em 2016 foram três oficinas ofertadas dentro do festival, permitindo um intercâmbio entre artistas nacionais e internacionais e a comunidade.

Canoas viu mais uma edição de um festival participativo, democrático e acessível, com uma programação intensa. As oficinas oferecidas gratuitamente à população reiteram a preocupação da coordenação em manter esse caráter do festival.

O trabalho de curadoria realizado proporcionou uma multiplicidade de espetáculos com diferentes linguagens, e o mesmo ocorreu nas oficinas que incluíram teatro na rua, palhaçaria e jogos musicais para o teatro.

Em cada uma das oficinas os participantes tiveram a chance de conhecer o processo de criação dos espetáculos, a disponibilidade dos artistas  em expor seus métodos merece destaque, pois entre o público presente a diversidade era grande, entre eles eu.

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Foto por Suyá Monteiro

A oficina que abriu as atividades formativas foi “Tempos de Cléo, compartilhando processos”.  Tivemos a oportunidade de conhecer os principais caminhos percorridos para a construção do espetáculo Tempos de Cléo, que  foi apresentado dias antes da oficina. A atriz Márcia Costa não teve receio em desnudar seus processos, apresentando como a equipe chegou a concepção do espetáculo e propondo práticas para os participantes da oficina.

Após a participação da oficina tive a clara certeza de que  a gênese do  espetáculo esta no seu processo de criação, Márcia mostrou na Villa Mimosa um epílogo de Tempos de Cléo, de maneira natural e generosa.

A começar pelo relato das pesquisas e os dispositivos que geraram a dramaturgia e a montagem, a direção, o projeto visual, a concepção do figurino, tudo foi posto às claras com o auxílio da produtora Rachel Coelho.

No segundo dia foi o momento de Samir Jaime do grupo Nativos Terra Rasgada, de São Paulo, ministrar a oficina de “Experimentos de Palhaçaria”. Entre gargalhadas e momentos de reflexão a oficina permitiu a interação entre indivíduos que já tinham experiência com palhaço e amadores.

Com sua pesquisa voltado para a identidade do palhaço brasileiro, Samir oportunizou dinâmicas para um aprofundamento do trabalho corporal visando à comunicação com espectador.

A comicidade, traço fundamental para quem faz palhaço  foi apresentada sob uma perspectiva não convencional: “Quem disse que palhaço tem que ser engraçado?” Essa pergunta surgiu no meio da oficina e surpreendeu, sobretudo a mim.

A maior máscara do mundo, o nariz do palhaço, esconde necessariamente um individuo triste? Na oficina  não se viu isto, pelo contrário, Samir esbanja alegria e bom humor. Uma das situações mais inusitadas era a maneira de nos comunicarmos com ele. Para fazer uma pergunta, antes deveríamos perguntar “Posso soltar um pum?”,  para dizer sim “jabuticaba” e para responder não ”leite caramelizado”.

É incrível como a visão que temos de nós mesmos pode ser absurdamente equivocada eu que sempre me julguei um palhaço por fazer brincadeiras com todos, descobri, na oficina, que preciso encontrar uma outra palavra para denominar esta minha característica, por que de palhaço não entendo nada.

Ficou a experiência de que o palhaço não é um personagem que se  constrói, e sim, um estado que se atinge e a impressão da heterogeneidade das pessoas que compunham a oficina, mostrou que para fazer palhaçaria, para se atingir este estado de palhaço não há idade, não há sexo e sim vontade de chegar lá.

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O último dia de oficinas ficou por conta do artista italiano Luca De Liberali que trouxe seu show Dá Itália com amor: músicas de Veneza  em que cantou musicas folclóricas de La Serenìssima, na oficina que ministrou “Jogos Musicais para o teatro”, vimos um pouco dessas canções  e o amor que ele tem pela música e pelo teatro.

Nessa oficina, cheia de bom humor, musicalidade e descobertas, meu ponto de vista foi externo, preferi observar , e como um voyeur me diverti muito com as brincadeiras e jogos propostos por esse italiano que conquistou a todos.

O grupo era grande e a diversidade também, mas Luca conseguiu conduzir  o grupo, sem que o idioma fosse um obstáculo, seu arranhado português exerceu bem esta função.

A primeira atividade foi em grupo, sem falar nada, uma dança de roda que quebrou o gelo, surpreendendo pelo formato diferenciado de iniciar uma atividade: sem apresentações, sem histórico, sem passado, somente o agora importava.

E do todo para a unidade o grande grupo foi divido em grupos menores para uma outra atividade. Em uma folha de papel cada grupo escreveu nome de partes do corpo, essas folhas foram trocadas entre os grupos e cada um deles precisou apresentar uma performance cujo tema propulsor eram essas partes do corpo. A regra? Essas partes deveriam necessariamente tocarem-se.

Após um tempo para se organizar, ao som de uma canção folclórica o resultado foi uma apresentação com explosão de sons, de corpos cruzando-se, movimentos que se completavam e repeliam-se ocupando todo o espaço.

Chegando a individualidade, a proposta era responder uma pergunta:  que maneiras diferentes que posso cumprimentar?  E cada um expressou um pouco da si, alguns mais extrovertidos, outros mais contidos, mas todos participaram mostrando o seus cumprimentos e para quem estava observando como eu causou boas gargalhadas.

A última atividade, uma esquete com máscaras,  foi conduzida com maestria por Luca como quem rege uma orquestra, como quem consegue extrair de cada nota os mais belos dos sons ele conseguiu explorar e extrair de cada presente o seu melhor.

Entre palmas e um sentimento de inexistência do tempo que passou tão rápido, um desejo de continuar, de não interromper aquele momento chegou ao fim a atividade.

Aqui ficaram as lembranças do riso fácil, da alegria, da grande palco que por vezes a vida é, e o desejo de um volte logo! Mas agora é Persistência e pé na tábua, até o próximo FESTIA.